domingo, 9 de janeiro de 2011

O Gato e o Rato

O Gato e o Rato

Dos animais que povoavam a floresta, quatro deles costumavam abrigar-se nos ocos do tronco meio apodrecido de uma velha árvore. Um deles era um gato do mato, ardiloso, ágil e traiçoeiro; outro, um ratinho de dentes afiados e apetite insaciável; o terceiro, uma doninha de corpo esguio e alongado; e finalmente, uma solitária coruja de olhos tristes.

Certa noite um caçador valeu-se da escuridão para enrolar uma rede de malha forte em torno do tronco esburacado, esperando, assim, capturar algum bicho que porventura ali se abrigasse. Por isso, quando os primeiros sinais da manhã surgiram no céu o gato tentou sair do seu esconderijo, mas não conseguiu fazê-lo porque a rede o impediu. Ele bem que forçou passagem, uma, duas, várias vezes, mas sem resultado, e por fim, sentindo-se derrotado, começou a miar desconsolado, o que atraiu a atenção do rato. Este, ao perceber o que se passava vibrou de alegria, e tão contente ficou que se aproximou para apreciar mais de perto o infortúnio do seu inimigo. Ao vê-lo chegar, disse-lhe o felino aprisionado:

- Meu amiguinho, tua presença me deixa feliz porque sei que teu coração bondoso certamente fará com que me libertes dessa armadilha em que tolamente caí. Do mesmo modo como por diversas vezes poupei a tua vida, o que agradeço aos deuses por terem me inspirado a fazer, sei que agora me pagarás de modo semelhante, roendo essas cordas e me devolvendo a liberdade.

- E o que ganharei com isso? - perguntou-lhe o rato.

- O meu reconhecimento - retrucou o gato. - Por isso firmaremos uma aliança duradoura que não só te poupará das minhas garras, como também me fará não dar tréguas à doninha e à coruja que aqui também se escondem, pois tanto um como a outra não hesitariam em transformar-te em refeição.

- O que pensas que sou? Um otário? - replicou o pequeno roedor. E subiu pelo tronco carcomido. Mas logo deu de frente com a doninha ainda adormecida, o que foi a sua salvação. Assustado, o ratinho afastou-se dali rapidamente, porém percebeu a tempo que caminhava em direção à coruja solitária, cujos olhos tristes o encaravam com más intenções. Então ele retornou depressa ao refúgio do gato e pôs-se a roer os nós da rede que o prendiam, um após outro, até que o felino conseguiu safar-se. Nesse instante os dois perceberam que o caçador se aproximava da velha árvore, e por isso trataram de fugir imediatamente, mas em direções opostas.

Dias depois, ao caminhar pela floresta o gato percebeu que o ratinho o vigiava de longe. Esperto como era, ele convidou:

- Venha cá, amigo querido, venha cá para que eu possa abraçar-te com o carinho e respeito que mereces, pois ainda não tirei da memória o teu gesto magnânimo. Abaixo de Deus, é a ti que devo a minha vida, e por isso me sinto ofendido quando percebo que me tratas como inimigo mortal. Vinde a mim, prezado irmão!...

E o rato, mantendo distância conveniente:

- Por acaso acreditas que eu possa esquecer-me do teu instinto de predador e da tua feroz propensão? Por acaso imaginas que eu admita ser possível um gato demonstrar gratidão em virtude de um tratado verbal feito em momento de aflição?

E dizendo isso mergulhou no buraco aberto ao pé de uma árvore e o gato do mato não o encontrou, apesar de procurá-lo por algum tempo.

Moral da Estória: Nunca confie em quem tem fama de falso e mentiroso.  

Baseado em uma Fábula de La Fontaine - Fernando Kitzinger Dannemann

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Águia e a Coruja

A Águia e a Coruja

Do seu ninho no alto do penhasco, a águia avistou uma coruja empoleirada na árvore bem mais abaixo, ao pé do grande rochedo, defronte ao ponto aonde morava. Curiosa, ela ficou observando a vizinha que se mantinha imóvel, sem mudar de posição, mexer com as asas, ou ao menos virar a cabeça para um lado e outro, sinal de que vigiava os arredores. E pensava: “Que animal estranho é aquele? Com toda certeza não se trata de um pássaro”. 

Alguns minutos se passaram com a águia absorta nessa contemplação, e como durante esse espaço de tempo a situação permaneceu a mesma, o interesse da observadora foi aumentando, aumentando, até que ela não mais se conteve e resolveu verificar de perto o que estava acontecendo. Então a poderosa rapineira pulou do ninho, pôs-se a descer voando em círculos, e quando pousou no topo da árvore, a pouca distância da coruja, perguntou-lhe: 

- Quem é você? Como é o seu nome?

- Eu sou a coruja - respondeu assustada a interpelada, enquanto procurava esconder-se o melhor possível em meio aos ramos e folhas.

- Mas que bicho feio você é! Que coisa mais ridícula! - comentou a águia entre risadas. - Só tem olhos e penas... Fale mais alguma coisa, pois eu quero ouvir sua voz direito. Se ela for tão bonita como a sua cara, então serei forçada a tapar os ouvidos.

E enquanto conversava ela tentava abrir caminho por entre a folhagem, buscando aproximar-se da coruja que recuava pelos ramos mais finos da árvore, sem conseguir esconder o pavor que sentia. Acontece que o fazendeiro dono daquela área havia passado por ali algumas horas antes e colocado visgo nos galhos mais grossos, e por isso a águia, de repente, se viu presa à armadilha grudenta, e dali em diante, quanto mais ela lutava para se libertar, mais as penas de suas asas ficavam agarradas aos galhos e ramos. Vendo o que acontecia, a coruja lhe disse, aliviada:

- Não vai demorar muito para o fazendeiro aparecer, e aí então você será apanhada e trancada em uma grande gaiola. Também é possível que ele a mate assim que a veja, para vingar-se pelos cordeiros dele que foram parar na sua barriga. E isso é bem feito. Você que é uma águia cuja vida foi toda passada no céu, livre dos perigos e sobressaltos a que nós outros estamos sujeitos o dia inteiro, tinha necessidade de descer lá das alturas e vir aqui embaixo para caçoar de mim? 


Moral da Estória: Quem humilha ou menospreza os seus semelhantes, certamente encontrará um dia alguém que lhe faça o mesmo. 

Baseado em uma Fábula de Leonardo Da Vinci - Fernando Kitzinger Dannemann

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