quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Queixa do Pavão

A Queixa do Pavão

O pavão dirigiu-se à deusa Juno para reclamar da voz que possuía. Alegava o pássaro que apesar do seu grande desejo de cantar louvores à divindade, por quem nutria respeito e devoção, não se animava a fazê-lo porque sabia que o som saído de sua garganta, ao invés de suave e melodioso, estrondava pelas cercanias de onde se encontrava como se fossem gritos agourentos, mais incomodando que agradando a quem o ouvisse. E reforçava sua contrariedade apontando um exemplo à rainha dos céus e da luz:
Veja o rouxinol, deusa onipotente, uma ave cujo tamanho e cor são absolutamente inexpressivos, mas que quando abre o bico encanta o mundo com a música que entoa. Enquanto eu...
Juno não gostou do que ouviu, e por isso retrucou furiosa:

- Ora, ora, invejoso ignorante! Então é isso? Queres para ti a voz do pequeno rouxinol? Por quê? Não te satisfaz a maravilhosa cauda que possuis, que se abre em leque esplendoroso como nenhum outro pássaro consegue fazer, encantando a todos com suas cores e seus desenhos que mais parecem os olhos deslumbrantes da natureza a observar os arredores? O brilho fulgurante das penas que cobrem teu peito também não é bastante? Tua figura majestosa agrada e deleita a quantos a vejam, mas isso não é suficiente para satisfazer a vaidade que pareces guardar dentro de ti em proporção maior que o bom senso? Lembra-te, infeliz cobiçoso, de que a Natureza repartiu os seus dons com tudo e com todos, e por isso, como cada um ganhou o seu, a satisfação se tornou geral. Por essa razão te darei a voz de Filomela, o rouxinol, se tornares a me pedi-la, mas em compensação te tirarei as plumas.
Diante das condições impostas pela deusa Juno, o pavão não quis efetuar a troca, e por isso nunca mais tocou no assunto.
Moral da Estória: Faz parte do nosso instinto invejar e desejar o que os outros têm, desde que, para tanto, não tenhamos que perder o que é nosso.

Baseado em uma Fábula de Leonardo da Vinci - Fernando Kitzinger Dannemann

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Cavalo e o Lobo

O CAVALO E O LOBO

O tempo era de primavera. Sob o sol de meio-dia o cavalo fartava-se com a relva que cobria bom trecho das margens do ribeirão que passava por ali, sem perceber que a certa distância, escondido entre os arbustos que lá se amontoavam, um lobo o observava com interesse. Mal intencionada, a fera resmungava entre os dentes:
- Ah, que belo animal! Se fosse um carneiro, um bezerro, ou até mesmo um burro, e certamente já estaria passando pela minha goela. Mas é um cavalo grande, com patas poderosas que eu preciso evitar a qualquer custo, sob pena de me dar muito mal. Por isso vou ter que enganá-lo.
E saindo do bosque com o jeito inocente dos que nada devem, ou temem, aproximou-se do cavalo e lhe disse: - Salve, companheiro! Prazer em ver-te neste dia radiante. Como sei que não me conheces, deixe-me dizer-te que os deuses deram a mim o poder da curar os males físicos fazendo-me conhecedor das virtudes das ervas, do alívio que elas são capazes de proporcionar aos que padecem de qualquer enfermidade. Por isso corro o mundo preocupado apenas em socorrer a quem precisa de socorro, e como certamente tens algum problema de saúde, eu me prontifico a curá-lo de graça, pois o dom que me foi concedido pelos deuses precisa ser distribuído aos necessitados sem que receba em troca qualquer tipo de remuneração.
O cavalo, que já ouvira falar da malícia do impostor, respondeu: - Que os deuses sejam louvados, doutor, pois estás chegando em hora muito boa. Já faz alguns dias que mal consigo suportar a dor de um tumor nas unhas dos pés, e o pior é que não sei o que fazer para livrar-me desse padecimento.
- Pelo que vejo seu caso só vai poder ser resolvido com cirurgia – observou o lobo. - E como nesse ramo eu tenho muita prática, vamos já resolver o seu problema.
- Pois não, doutor – concordou o cavalo. – Se é pra ser assim, então vou te dar as costas para que possas examinar meus pés com mais cuidado.
- Ótimo, meu caro – murmurou o lobo. E se aproximou do falso enfermo sem maiores cuidados. Mas assim que o fez, este lhe deu dois coices violentos que o atingiram em cheio no focinho, transformando-o de imediato numa bola enorme.
Assustado e dolorido o lobo se pôs em fuga o mais depressa que pôde, mas enquanto corria para bem longe, dizia a si mesmo: - Bem feito! Quem me mandou ser tolo de querer passar pelo que não sou? Resultado: fui buscar lã e saí tosquiado.
Moral da Estória: Esperteza, quando é demais, acaba sempre dando mal resultado.
Baseado em uma Fábula de Leonardo da Vinci - Fernando Kitzinger Dannemann

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